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Oriente Médio e Palestina

sábado, 28 de abril de 2012

Libéria - Uma História americana na África





Tecnicamente, a Libéria era uma colônia da American Colonization Society (Sociedade Americana de Colonização – SAC), que a fundara em 1822 com o auxílio do governo norteamericano, para nela estabelecer afroamericanos “livres”, desejosos de fugir da escravatura e do racismo dos brancos, bem como africanos (recapturados) que a marinha norteamericana salvara das mãos dos negreiros que cruzavam o Atlântico. Monróvia, fundada em 1822 pelos primeiros emigrantes afroamericanos, foi o núcleo em torno do qual se desenvolveu a Libéria. Até 1906 aproximadamente, mais de 18 mil africanos do Novo Mundo, na maioria dos casos com a ajuda da SAC, emigraram anualmente para a Libéria, fixandose em umas três dezenas de povoações próximas da costa do Atlântico, em terras que aquela sociedade ou o governo liberiano tinham obtido dos chefes africanos da região. Quase todos os colonos eram afroamericanos, mas 400 deles, pelo menos, eram afroantilhanos originários de Barbados, que emigraram em 1865 e se instalaram em conjunto em Crozierville, 13 km adentro de Monróvia. Mais de 5 mil escravos libertos (recapturados), originários na sua maior parte da região do Congo, também se fixaram na Libéria, principalmente entre 1844 e 1863, de início confiados aos américoliberianos, designação dada aos colonos africanos vindos do Novo Mundo e a seus descendentes4. Os américoliberianos, que necessitavam de terras para a agricultura, o comércio e a construção de uma nação forte, e que enfrentavam a concorrência do Reino Unido e da França, também à procura de terras para o estabelecimento de entrepostos comerciais e postos militares, ampliaram consideravelmente o território da Libéria a partir de alguns pontos isolados da costa que os chefes africanos inicialmente lhes haviam arrendado. Em dezembro de 1875, quando tal expansão praticamente cessara, o território da Libéria, segundo o governo, estendiase por cerca de 960 km ao longo da costa do Atlântico, com uma largura de 320 a 400 km, alcançando teoricamente o Níger (ver figura 11.1). A população compunhase de colonos de origem norteamericana (os américoliberianos) e africana (os recapturados), além das etnias autóctones. Tais etnias compreendiam os Vai, os Dei, os Basa, os Kru e os Grebo, perto da costa, além dos Gola, Kissi, Bandi, Kpele, Loma e Mandinga, no interior5. Os américoliberianos adotaram uma cultura essencialmente ocidental em seu estilo de vida, instituições políticas, pelo uso da língua inglesa, do regime da propriedade individual e definitiva do solo, do cristianismo e da monogamia. Os autóctones eram tradicionalistas ou muçulmanos, falavam línguas próprias e possuíam o solo em comum. Suas aldeias eram governadas por chefes e anciãos assistidos por organizações sociopolíticas ou fundadas na divisão em grupos etários, como os poro (sociedades de homens) e os sande (sociedades de mulheres). Embora apreciassem a educação ocidental trazida pelos américo-liberianos e missionários brancos, alguns de seus anciãos se opunham à difusão do cristianismo e das práticas que interferiam em suas leis e costumes. Como não dispunha de verdadeiro poderio militar e lhe faltavam funcionários qualificados e fundos, o governo não podia executar o projeto de ocupação efetiva do território nacional. Para tanto lhe seria necessário construir estradas e linhas ferroviárias, postos administrativos e militares, colônias de povoamento américoliberianas em todo o país, ou assegurar a cooperação dos chefes do interior pagandolhes regularmente um estipêndio e convidandoos a “representar” seu povo na qualidade de “juízes”. Por outro lado, em começos da década de 1880, quando teve início a corrida para a África (cujo ponto culminante foi a conferência de Berlim, em 18841885), tornavase provável que as potências europeias se apossassem de grande parte do território que a Libéria reivindicava. A principal preocupação da Libéria, portanto, era defender o território que havia adquirido. Em vésperas da corrida a situação não mudara muito na Libéria desde 1847, data em que se tornou independente da American Colonization Society. Tal como nos Estados Unidos da América, o Parlamento se compunha de Câmara de Representantes e Senado. O poder executivo pertencia ao presidente, vicepresidente, eleitos pelo povo de dois em dois anos, e ministros, nomeados pelo presidente com a anuência do Senado. O poder executivo representavase em cada condado – unidade de administração local – por um superintendente que dirigia a administração. A autoridade do presidente, em teoria, era muito ampla; mas, como não tinha meios para impôla fora de Monróvia, certas famílias américoliberianas detiveram, em alguns casos por várias gerações, sob o governo dos republicanos e dos True Whigs, um poder político considerável à escala dos condados. Entre tais famílias, que um crítico liberiano chamou ironicamente de “lordes e nobres” da Libéria, citamse os Hoff, os Sherman e os Watson, do condado de Cape Mount; os Barclay, os Coleman, os Cooper, os Dennis, os Grimes, os Howard, os Johnson, os King e os Morris, do condado de Montserrado; os Harmon e os Horace, do condado de Grand Bassa; os Birch, os Greene, os Grigsby, os Ross e os Witherspoon, do condado de Sinoe; os Brewer, os Dossen, os Gibson, os Tubman e os Yancy, do condado de Maryland; todos formavam a elite política (e sempre, invariavelmente, a elite econômica). No entanto, a unidade nacional estava minada por graves divisões sociais. Existiam dois partidos políticos desde 1847, data da independência: o Partido Republicano, dominado pelos colonos mulatos, e o Partido dos True Whigs, dominado pelos colonos negros, congoleses e autóctones instruídos. Não havia diferenças fundamentais entre eles, tanto no plano ideológico como no político. Ambos se enfrentavam de dois em dois anos, por ocasião das eleições, em ásperas disputas tanto mais estéreis quanto é certo que eles não se opunham em nenhuma questão de fundo: tratavase era de conquistar o poder, para se apoderar de todo o sistema de clientela da República. Os republicanos dirigiram a Libéria desde a independência até 1870, ano em que foram derrotados pelos True Whigs. Voltaram ao poder em 1871, que lhes escapou de novo em 1877.
Os True Whigs governaram então o país sem interrupção até 1980, quando um golpe de Estado desfechado pelo sargentochefe (hoje general) Samuel Doe os derrubou. A divisão era bem mais profunda entre os américoliberianos e os africanos autóctones. Durante todo o século XIX, a política dos américoliberianos tinha como objetivo a assimilação cultural e política dos autóctones, tratando de “civilizálos”, convertêlos ao cristianismo e darlhes direitos idênticos aos dos colonos. Em certa medida, tiveram êxito na assimilação dos recapturados (escravos libertos), bem menos numerosos que os colonos, mas, ciosos de seus privilégios, não deixaram de exercer um rígido controle político sobre a Libéria, limitando a participação dos autóctones, mesmo os instruídos, nos negócios públicos. Pouquíssimos entre os autóctones instruídos obtiveram o direito de voto, em pé de igualdade com os américoliberianos, mesmo sendo estes pobres e analfabetos. Os representantes dos autóctones (representantes, principalmente, dos africanos da costa) com cadeiras no Parlamento de 1875 em diante eram principalmente chefes designados “juízes” (ou “delegados”). Suas circunscrições, para que fossem delegados, tinham de pagar ao governo uma taxa (delega te fee) de 100 dólares. Como os delegados só falavam por meio de um intérprete sobre questões étnicas e não tinham direito de voto, sua influência sobre a política do governo era muito reduzida8. Por isso africanos instruídos e chefes viviam descontentes com a sua limitada participação na vida pública. Por outro lado, o governo procurava aumentar ao máximo o que constituía suas principais fontes de renda: os direitos de importação e exportação e outras taxas sobre o comércio e o transporte marítimo. Para facilitar a arrecadação e o controle do comércio externo pelos comerciantes américoliberianos, o governo vedou aos estrangeiros, em 1839, o comércio na Libéria fora de seis portos de desembarque américoliberianos. As limitações e os impostos provocaram descontentamento nos negociantes estrangeiros e nos chefes africanos autóctones, que, até então, controlavam o comércio externo e recebiam os direitos aduaneiros. Uns e outros se aliaram muitas vezes para lutar contra as medidas do governo ou para solicitar aos Estados europeus que interviessem a seu favor. Foi assim que, por várias vezes, no decurso do século XIX, os Vai, os Kru e os Grebo, da costa da Libéria, pegaram em armas e se revoltaram contra os impostos que o governo queria receber sobre o seu comércio

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