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Oriente Médio e Palestina

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A África e a diáspora negra



By:  Joseph E. Harris com a colaboração de Slimane Zeghidour

“No século XX e, sobretudo, após a Primeira Guerra Mundial, durante as negociações do Tratado de Versalhes e a formação da Sociedade das Nações, foram os negros americanos quem defenderam energicamente os direitos dos negros africanos, pois, nesta época, nós não estávamos em condições de falar em nosso próprio nome.” “Não esqueçamos jamais que eles são dos nossos [os negros da diáspora]. Estes filhos e filhas da África, arrancados de nossas margens, não esqueceram os laços que os unem à terra dos seus ancestrais [...]. Eles combatiam pela igualdade das nações e raças na África, bem anteriormente a que muitos entre nós tenham sequer tomado consciência do nosso rebaixamento [...]. Agora que nós, africanos, conquistamos a nossa independência, eles deveriam poder encontrar um poderoso amparo para alcançar o pleno reconhecimento dos seus direitos e da sua dignidade como cidadãos de seu país.” “O maior serviço que vós podeis prestar ao vosso país seria de persuadir os milhares de negros, dos Estados Unidos da América do Norte e das Antilhas, a virem trabalhar conosco pelo desenvolvimento da Etiópia. Estas citações mostram claramente que a dinâmica das relações históricas entre a África continental e as suas diásporas, estudada nos volumes anteriores, prosseguiu após 1935. Estas relações, sobreviventes aos tráficos escravistas em direção à Ásia, Europa e Américas, foram consolidadas pelas experiências psicológicas e sociais da diáspora, de onde nasceram os movimentos de protesto, as revoltas e as ações internacionais conduzidas em prol da libertação dos negros, da liberdade e igualdade dos africanos e dos seus descendentes, no continente e no estrangeiro. Igualmente, a natureza, a maior ou menor crueldade da escravatura, o número de escravos e a sua proporção em relação aos senhores, influenciaram profundamente o processo de socialização e assim contribuíram, para modelar a representação da África, própria às diferentes comunidades da diáspora. Do mesmo modo, à imagem da maneira variável através da qual os
africanos do continente se fazem representar, os pertencentes à diáspora têm a sua atuação em função da sua experiência de colonização. Na África como no exterior, os europeus, os americanos e os asiáticos depreciaram a raça negra e desestimularam a expressão de uma solidariedade internacional entre os negros. Entretanto, a ideia de um “salvamento” da África, a provocar a emancipação dos negros e demonstrar a sua capacidade, tanto em se autogovernar, quanto em contribuírem para a civilização mundial, impôsse fortemente na diáspora e provocou o nascimento dos movimentos negros internacionais de libertação. Como
exposto no capítulo 29 do volume VII, estas tentativas de libertação processadas na África e na diáspora culminaram, entre 1900 e 1935, no movimento panafricanista; os anos 1920, particularmente, conheceram uma intensa atividade, especialmente, graças aos esforços de Marcus Garvey e W. E. B. Du Bois, nos Estados Unidos da América do Norte, e àqueles dos estudantes africanos, na França e na GrãBretanha. Vejamos, neste momento, os fatos que se passaram na diáspora africana após 1935. Primeiramente, os africanos continuaram a emigrar em direção à Europa, Ásia e ao Novo Mundo, contudo, as suas motivações, o seu número e o seu destino eram, desde então, sensivelmente diferentes. Aproximadamente, até o final do século XIX, o tráfico praticado através do Mediterrâneo, do Oceano Índico e, principalmente, do Atlântico, foi evidentemente o motivo essencial da emigração africana. No século XX, notadamente entre 1935 e 1960, o sistema colonial constituiu a principal razão da emigração. Crescente número de africanos, impelidos pelo desejo de escaparem à opressão econômica e política, emigrou para as capitais europeias. Eles vêm principalmente das colônias francesas da
África do Norte e das colônias belgas; milhares de argelinos estabeleceramse especialmente na França durante este período: no curso da guerra da Argélia, havia na França cerca de 450.000 argelinos e pouquíssimos retornaram à sua terra natal4. A necessidade de formação superior explica, igualmente, boa parte das emigrações africanas, quase todas as potências coloniais desinteressaramse pelo ensino universitário na África. O número de estudantes africanos inscritos nas universidades europeias e americanas cresce de modo intenso, entre 1935 e 1960, e muitos dentre eles não mais retornam ao seu país de origem. Durante este período, a emigração africana para a América do Sul, Caribe e Índia cessa quase inteiramente, os emigrantes dirigiamse, em sua grande maioria e desta feita, para a Europa e para os Estados Unidos da América do Norte, em uma proporção muito superior àquela dos dois séculos precedentes. Em que pese a ausência de estatísticas, podese afirmar com certeza que o número de africanos a terem deixado naquele momento o seu continente fora relativamente limitado, uma vez que se tratava principalmente de estudantes. Após as independências, a partir dos anos 1960, a emigração prosseguiu, porém, a sua natureza, as suas motivações e o destino dos emigrantes foram, novamente, modificados. Não é mais os estudantes que se expatriam, mas, igualmente, técnicos e especialistas altamente qualificados: médicos, engenheiros, homens de negócios, músicos e outros artistas, professores universitários, etc. Por outro lado, durante este período, a emigração conduz novamente os africanos a toda parte do mundo, como anteriormente ao século XX, pois que, eles não somente se estabelecem na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América do Norte mas, igualmente, no Oriente Médio, nos antigos países socialistas, no Canadá, na Austrália e no Pacífico Sul. Professores e conferencistas africanos oferecem cursos na Universidade da Papuásia Nova Guiné! Este fenômeno, a “fuga dos cérebros”, tomou proporções realmente alarmantes nos anos 1960 e 1970, entretanto e felizmente, parece ter chegado à sua solução. Nesta mesma época, não mais causa espanto encontrar africanos médicos, dentistas, cientistas, engenheiros, professores, etc., no estrangeiro. Se a África está privada das suas competências, estas ao menos testemunham o seu êxito nos planos intelectual, cultural e político. A emigração das mulheres confere uma nova característica à emigração africana. Instruídas ou semialfabetizadas, diplomadas ou não, frequentemente oriundas da costa ocidental, estas africanas emigraram para Europa (especialmente para a França, Alemanha ou GrãBretanha) e para as Américas na esperança de lá encontrarem um emprego (muitos são enfermeiras) ou enriqueceremse (aqui incluído o contrabando ou tráfico de entorpecentes). Uma emigração masculina do mesmo tipo constituiu a terceira característica da diáspora moderna: uma crescente quantidade de africanos pouco instruídos, sem formação, esperam ganhar a sua vida nas grandes metrópoles europeias, por intermédio de variados tipos de atividades, lícitas ou não, a começar pelo “lavar a louça” em restaurantes, passando pelos trabalhos de manutenção, até, finalmente e inclusive, o contrabando ou o tráfico de drogas. Uma última categoria de emigrantes, recentemente evidenciada, vem inchar as fileiras da nova diáspora, temporária ou definitivamente. Tratase dos exilados políticos. Eles fugiram da guerra civil ou foram vítimas dos conflitos fronteiriços entre países independentes; foram os instigadores ou organizadores de um golpe de Estado fracassado ou foram expulsos do seu país por espionagem em benefício de uma potência estrangeira ou por outras razões. Assim sendo, em
1986, Gana privou oito dos seus cidadãos, acusados de espionagem em favor dos Estados Unidos da América do Norte, da sua cidadania e os trocou por um agente dos serviços de segurança ganês que trabalhava nos Estados Unidos. Podese, a partir do supraexposto, facilmente deduzir que as razões, antigas ou novas e em virtude das quais os africanos emigraram, têm a sua origem, inicialmente, na progressiva degradação da situação socioeconômica e política desde as independências (degradação examinada em outros capítulos do presente volume). Os africanos emigraram para encontrar empregos ou maior realização profissional, para rapidamente enriquecer ou para conhecer a aventura. Os africanos da diáspora desde 1935 Qual contribuição os africanos dos diferentes países da diáspora teriam trazido ao panafricanismo, desde os anos 1930? O movimento panafricanista conheceu uma nítida inflexão em suas atividades na América e na Europa após a realização do Congresso PanAfricano de Nova Iorque, no ano 1927. Contudo nos anos 1930, ele reagiu vigorosamente à agressão da Itália contra a Etiópia (19351941) e à ascensão do fascismo na Europa. Esta reação manifesta, especialmente na Europa e na América, conduziu a um aprofundamento da doutrina e a uma ampliação das atividades, as quais se expressariam durante o Congresso PanAfricano de Manchester, em 1945, e contribuiriam para a derrubada do sistema colonial e para a conquista das independências, nos anos 1950 e 1960. A agressão contra a Etiópia colocou em espetacular evidência a dependência da África em relação à Europa, assim como a hesitação e a ineficácia das grandes potências quando elas deveriam, isoladas ou sob a égide da Sociedade das Nações, tornar respeitáveis a liberdade e a justiça. Na Inglaterra, C. L. R. James e outros fundaram, em 1936, a International African Friends of Ethiopia (IAFE). Esta associação, através das suas conferências, suas petições e suas manifestações, ganhou o apoio da opinião pública à causa da Etiópia. Uma organização amplamente implantada e muito combatente, o International African Service Bureau (IASB), criado em 1937, soube eficazmente associar os problemas locais à crise etíope. Com o objetivo de apoiar os negros da GrãBretanha, nos campos econômico e político, bem como no tocante à educação, o IASB, amplamente popular graças ao seu jornal, o International African Opinion, esforçavase em cooperar com associações americanas. Uma das grandes figuras deste movimento panafricano na GrãBretanha foi o guianês George Thomas Nathaniel Griffith, mais conhecido sob o nome RasMakonnen. Ele estudara nos Estados Unidos da América do Norte, onde fizera muitos amigos entre os negros, exercendo profunda influência, embora muitas vezes discreta, sobre os negros da GrãBretanha. Através do seu trabalho, conseguiu economizar fundos e abrir diversos restaurantes e clubes em Manchester, os quais serviam à causa dos trabalhadores e negros. Ele possuía estabelecimentos como o Ethiopian Teashop, o Cosmopolitan, o Forum Club, a Belle Étoile, nos quais os clientes negros, por vezes futuros dirigentes africanos ou antilhanos, vinham debater problemas atuais, e onde estudantes negros podiam trabalhar para pagarem seus estudos. Makonnen, juntamente com o Dr. Peter Milliard, seu compatriota, o queniano Jomo Kenyatta e o antilhano George Padmore, criara a PanAfrican Publishing Company, responsável pela publicação mensal do PanAfrica. Ele também possuía uma livraria, a Economist7. Esta rede de empresas devia facilitar a realização da reunião de nacionalistas negros, a mais bemsucedida de todas aquelas ocorridas antes da era da independência. Ao grupo formado ao redor de Ras Makonnen agregaramse o sulafricano Peter Abrahams, o serraleonês WallaceJohnson e C. L. R. James, posteriormente juntouse Kwame Nkrumah. Estes militantes fundaram, no ano de 1944, a Federação Panafricana, organizadora do memorável quinto Congresso PanAfricano, realizado em Manchester, no ano 1945. Nos Estados Unidos da América do Norte, sob a direção de William Leo Hansberry, negros vindos da África ou provenientes da diáspora fundaram, em 1934, o Ethiopian Research Council (ERC), com o objetivo de tornar conhecida a situação da Etiópia e contribuir com a formação de uma rede internacional de negros engajados em expandirem a causa africana. Os fundadores do ERC — William Leo Hansberry, Ralph Bunche e William Steen, cidadãos norteamericanos, o ugandense Hosea Nyabongo e o etíope Malaku Bayen — sabiam que a Etiópia exercia uma considerável atração sobre as populações africanas e que a consciência da herança etíope inspirara uma ideologia de libertação que representava uma poderosa e recorrente afirmação da identidade e da solidariedade africanas no continente e na diáspora. Os poucos professores e estudantes da Universidade Howard oriundos do ERC possuíam contatos em diversas cidades dos Estados Unidos da América do Norte, na Etiópia, GrãBretanha, França, Itália e nas Antilhas. O ERC desempenhava um importante papel como escritóriocentral de informação sobre a Etiópia e facilitava ou organizava as atividades conduzidas em favor deste país. Quando os italianos invadiram a Etiópia, numerosos afroamericanos pretenderam unirse à armada etíope, entretanto, o governo dos Estados Unidos
da América do Norte declarouse neutro e interditou aos cidadãos americanos tomar partido em relação à guerra. Apesar disso, dois pilotos afroamericanos, Hubert Julian e John Robinson, encorajados pelo ERC, foram à guerra na Etiópia. Robinson tornouse o piloto particular do imperador e foi nomeado conselheiro para a aviação. Apelidado Condor Marrom, ele efetuou várias missões aéreas para a Etiópia, no curso de uma das quais o seu avião foi abatido. O apoio moral e a ajuda material dos africanos da diáspora foram mais importantes que a sua ajuda militar. Os negros da diáspora como aqueles das colônias africanas, organizaram manifestações e multiplicaram os artigos e os clamores em favor da Etiópia. Entre as organizações próetíopes criadas nos Estados Unidos da América do Norte, devemos citar os Friends of Ethiopia (FOA), fundada por um professor afroamericano, Villis Huggins, quem fora à Europa e obtivera o aval dos embaixadores etíopes em Londres e Paris. Em menos de um ano, a FOA abriu escritórios em 106 cidades, distribuídas em 19 Estados norteamericanos. Ela organizou coletas de fundos em conjunto com o International African Friends de Londres. É preciso igualmente assinalar a contribuição do Medical Committee for the Defense of Ethiopia, formado por um grupo de médicos negros originários das Antilhas e dos Estados Unidos da América do Norte, a trabalho em Nova Iorque. Este comitê fretou um ou dois navios carregados de produtos médicos destinados aos combatentes etíopes. Outros grupos − nos EUA, na Jamaica, em Trinidad e Tobago, no Panamá, em Barbados, em SainteLucie e alhures −
distribuíam material de propaganda em favor da Etiópia, organizavam concentrações, afirmando a sua solidariedade visàvis dos etíopes. Esta solidariedade expressouse naturalmente com força particular junto aos rastafáris, os quais haviam endeusado o imperador Haïlé Sélassié e extraído o seu nome de um antigo título, rãs Tafari. O apoio dos africanos da diáspora continuou a se manifestar mesmo quando o imperador foi obrigado ao exílio. As coletas de fundos prosseguiram e os afroamericanos engajaramse, ao menos em uma ocasião, em negociações em caráter privado. Uma delegação foi a Londres e, malgrado as objeções do Departamento de Estado norteamericano, persuadiu o imperador a enviar um emissário aos Estados Unidos da América do Norte, intuindo promover a causa etíope naquele país. Foi assim que Malaku Bayen, diplomado em 1935 pela Escola de Medicina da Universidade Howard e cofundador do ERC, chegou à Nova Iorque, em 1936, na qualidade de enviado do imperador para o continente americano. Bayen e a sua esposa, afroamericana, receberam uma boa acolhida dos afroamericanos e de alguns brancos. Algumas grandes manifestações permitiram arrecadar fundos, mas o principal resultado da visita de Bayen aos EUA foi a fundação da Ethiopian World Federation (EWF), em 1937. Bayen declarou publicamente: “Nós vamos criar os Estados Unidos da África”, ele acreditava que a EWF insuflaria nos negros do mundo inteiro o orgulho da raça. Em 1940, ele elogiou Marcus Garvey, relembrando que a sua Universal Negro Improvement Association abrira espaço para a EWF12.
Tal como Garvey, os Bayen fundaram uma publicação oficial, The Voice of Ethiopia, “jornal da vasta comunidade universal dos negros e amigos da Etiópia, espalhados mundo afora”. Este jornal desempenhou um papel primordial no processo de redefinição da africanidade, opondo-se especialmente ao emprego da palavra inglesa negro, considerada um insulto e um meio para a divisão dos negros. “Nós não somos mais negros da Antilhas ou americanos mas, verdadeiros etíopes”. “Negros da América, a Etiópia vos pertence”. A palavra “preto” (black)
adquiriu grande popularidade: “Pretos, univos”, “Nem mesmo um preto derramará o seu sangue pela Europa enquanto a Etiópia não for libertada”, estes slogans e alguns outros popularizaramse junto ao público graças ao The Voice of Ethiopia. O The Voice of Ethiopia publicou artigos assinados por George Padmore, Nnamdi Azikiwe, W. E. B. Du Bois, J. A. Rogers ou Akiki Nyabongo. Encontravase frequentemente nestes textos temas da história dos negros, assim como artigos sobre personalidades negras, tais como o haitiano Toussaint Louverture, o imperador da Etiópia Ménélik, o pastor e educador originário da Costa do Ouro (atual Gana) James Aggrey, o americano Richard Wright, entre muitos outros. A presença de seções da EWF em todos os Estados Unidos da América e em todos os países do Caribe proporciona uma ideia da amplitude da sua influência. No dia 23 de julho de 1939, na Jamaica, uma reunião organizada para apresentar a Carta da Federação, reuniu cerca de 800 pessoas e teve como principal orador Amy Garvey. Reuniões do mesmo gênero foram organizadas em novembro de 1939, na capital de Cuba, Havana, e em Tela, Honduras. Em todas as ocasiões os oradores elogiaram a obra de Garvey. Uma crônica do The Voice of Ethiopia, intitulada “novidades da comunidade negra”, oferece uma imagem da influência exercida por este jornal e pela EWF. Neste periódico publicamse informações e correspondências provenientes, especialmente, do Egito, da Etiópia, do Sudão, do Panamá, da Jamaica, de Honduras, da Venezuela e da Nigéria. Os artigos do The Voice of Ethiopia eram replicados pelo The Comet (Nigéria), pelo Boston Chronicle (EUA), pela Panama Tribune (Panamá), pela Union Messenger (SaintChristophe) e pelo The People (Trinidad). Donativos em dinheiro destinados a ajudarem a Etiópia foram enviados da Guiana britânica, de Bocas Del Toro e de Gamboa (Panamá), da ilha de San Andrés (Colômbia), de Westmoreland (Jamaica), de Maracaibo e de Longunillas (Venezuela). Quando Haïlé Sélassié retomou o seu trono, em 1941, o governo etíope patrocinou a criação da primeira escola mista do país, fundada por Mignon Ford antilhano de Barbados emigrado dos Estados Unidos em 1930. Os médicos, pilotos, professores e outros afroamericanos vindos à Etiópia após a agressão italiana retornaram aos Estados Unidos, entretanto, graças a William Leo Hansberry, muitos afroamericanos puderam dirigirse à Etiópia para trabalharem como professores ou jornalistas. Outros negros, originários de Barbados, da Guiné, de Porto Rico e dos Estados Unidos da América do Norte, foram empregados como pilotos ou mecânicos. A invasão da Etiópia pelos italianos igualmente suscitou, em 1937, a criação do International Committee on África, transformado em 1941 no Council on Africa Affairs16. O seu fundador, o afroamericano Max Yergan, cumprira durante vinte anos as funções de secretário da Young Men’s Christian Association (YMCA), na África Oriental e Austral. Ele foi certamente influenciado pelas suas relações com o Congresso Nacional Africano (CNA) e com o Sindicato SulAfricano dos Trabalhadores da Indústria e do Comércio. Portanto e desde algum tempo empenhado em “ajudar a África”, Yergan persuadiu certo número de negros (e de brancos progressistas) a fundarem consigo este Conselho de Assuntos Africanos. O famoso cantor Paul Robeson e outro antigo empregado da YMCA, William Alphaeus Hunton foram, juntamente com Yergan, os principais dirigentes da organização financiada por ricos brancos progressistas. Yergan, Hunton e Robeson aderiam ao marxismo e mantinham boas relações com o Partido Comunista Americano sem, ao que tudo indica, serem membros da organização. As suas ideias políticas lhes valeram ataques públicos no Conselho. Entretanto, no contexto da época, a diretriz política dominante visava opor uma “frente única” ao fascismo, o que implicava na colaboração com os comunistas, foi justamente com este espírito que numerosos intelectuais, sindicalistas e muitos outros aceitavam esta cooperação. Os negros não formavam, portanto, uma exceção. O Conselho buscava promover a libertação dos africanos e melhorar a sua posição social e econômica; com este objetivo, ele dedicavase a difundir informações, facilitar a formação dos africanos na Europa e na América, organizar intercâmbios, favorecer a cooperação entre os africanos. Assim sendo, ele organizou
um encontro político com D. T. T. Jabavu e A. B. Xuma, dois sulafricanos que haviam estudado nos Estados Unidos e dirigiam a AllAfrican National Convention (AANC), organização fundada em 1935, em defesa dos direitos dos negros sulafricanos. Após 1941, o Conselho engajouse ainda mais ativamente em favor da África e da descolonização em geral. Seções foram criadas em muitas cidades dos Estados Unidos da América do Norte; uma dentre elas contou em meio aos seus aderentes com Rosebery T. Bokwe, médico sulafricano igualmente membro do CNA. O Conselho endereçou cartas e petições aos governos dos Estados Unidos da América do Norte e dos países da Europa, assim como a organizações internacionais. Ele encorajou os sindicatos e os movimentos nacionalistas africanos. A interdição, no Quênia, na África do Sul e no Congo belga, da usa publicação New Africa dá uma noção sobre a sua influência. Precursores, em razão disso, do grupo de pressão próafricano existente até os dias atuais nos Estados Unidos da América do Norte, vários membros do Conselho encontraram, em 1944, representantes da Divisão da África, pouco anteriormente criada no seio do Departamento de Estado americano, e recomendaram a adoção de uma política favorável à África. Este encontro parece ter se desdobrado na ulterior assessoria, junto ao governo, provinda de alguns negros especialistas na questão africana. Ao longo da primeira Conferência das Nações Unidas reunida em São Francisco, no ano de 1945, Yergan e Eslanda Robeson exigiram uma melhoria na situação econômica, política e social dos africanos. O Conselho solicitou expressamente que os territórios sob mandato e todas as possessões africanas da Espanha, de Portugal e da Itália, excetuandose a Eritreia, fossem colocadas sob a tutela das Nações Unidas e que à África do
Sul lhe fosse interditada a representação como membro do Conselho de Tutela. Após a Segunda Guerra Mundial, as declarações do Conselho expressaram uma crescente oposição à política americana. Esta postura explicase, em parte, pela Guerra Fria, a qual colocava o Leste e o Oeste um contra o outro mas, igualmente, em razão do acelerado desenvolvimento dos movimentos de libertação na África e na diáspora. O Conselho preocupavase, particularmente, com a África do Sul, não somente porque Yergan lá vivera, mas em função da
crescente repressão exercida naquele país contra os negros, sobretudo a partir dos anos 1940. Em suplemento, a fome que se abatia naquela região agravava sobremaneira a situação. O Conselho criou um Comitê de Ajuda às vítimas da fome na África do Sul, enviando dinheiro e alimentos às populações atingidas. A anexação do Sudoeste africano (atual Namíbia), pela África do Sul, provocou vigorosos protestos. Um dos panfletos publicados sobre esta questão pelo Conselho foi redigido por I. B. Tabata, quem antes a publicara, em 1945, sob a égide do CNA. Hunton escreveu textos sobre a fome e a repressão política na África do Sul; ele também realizava um relatório minucioso e periódico sobre os debates realizados nas Nações Unidas, em respeito aos nacionalistas africanos da África, da Europa e dos Estados Unidos da América do Norte. A partir de 1949, a direção do Conselho compôsse exclusivamente de negros; Robeson foi nomeado presidente, Du Bois vicepresidente, e Hunton secretárioexecutivo. O Conselho fez então prova de um crescente radicalismo que lhe valera um aumento da insolência e dos obstáculos impostos pelo governo norteamericano; todavia, o Conselho continuou a sua luta em favor dos africanos até a sua dissolução, em 1955. Ele preparava assim a ação de um grupo de pressão afroamericano, melhor implantado e cuja ocupação consistiria em enfrentar, com ainda maior eficácia, os problemas da África e do mundo negro.

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