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Oriente Médio e Palestina

sábado, 29 de outubro de 2011

O Brasil Imperial - Tv Escola




Uma série de videos que aborda, de forma extremamente agradável, eventos da História do Império brasileiro. Acho uma ótima opção para aqueles alunos que precisam aprofundar o conhecimento acerca do período imperial, pois creio que, ao assistir aos vídeos, o aluno poderá complementar a leitura dos textos. Bons estudos. 
Professor Arão Alves






















quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Video aula sobre a revolução industrial


Obs: Em relação a definição do pensamento de David Ricardo não podemos concluir que o economista defendia o salário mínimo. Podemos afirmar que ele, como membro da escola liberal, tinha como pressuposto a harmonia do mercado através das leis naturais. Suas pesquisas possibilitaram que ele desenvolvesse uma teoria que ficou conhecida como a "Lei Férrea dos Sálários" Segundo essa lei, o valor do salário do trabalhador era sempre igual ao valor mínimo necessário á subsistência do trabalhador, ou seja era a própria dinâmica do mercado que determinava a remuneração do trabalho. Para o economista em períodos quando os salários eram superiores a necessidade mínima do trabalhador havia uma melhora nas condições de saúde, impulsionando, assim, a queda da taxa de mortalidade e o crescimento da taxa de natalidade. O aumento populacional proporcionado causaria o excesso de mão de obra e consequentemente diminuiria o valor dos salários trazendo-os para a faixa natural.


Foram os socialistas científicos ( Marx/Engels) que denominaram os socialistas anteriores de Utópicos.

video aula sobre o Iluminismo



Obs: pequeno comentário sobre os clássicos.
A partir do século XVII, as teorias mercantilistas já vinham sofrendo grandes críticas; willian Petty ( 1623- 1683 ), por exemplo, apontava que a riqueza provinha do trabalho, e não do comércio. Os fisiocratas, como vimos, colocavam os bens materiais como a fonte de riquezas: estes eram extraídos do solo, mediante o cultivo. assim, somente da agricultura poderia provir o excedente que seria distribuído entre as demais classes da sociedade. A partir de Adam Smith surgiu a denominada "concepção Clássica da economia" também chamada de Escola Clássica. Em sua obra mais famosa, "A Riqueza das Nações", publicada em 1776, Smith aponta que a riqueza  é constituida pelos valores de uso. O que determina a riqueza de uma nação é a soma total de sua produção. Uma das análises mais profundas de Smith se dá quando ele distingue qual é, verdadeiramente, o fundamento do valor de troca. Esse fundamento não está na utilidade da mercadoria, ou na sua capacidade de satisfação das necessidades humanas; está, isto sim, refletido no trabalho gasto em sua produção.

Bons estudos!!!

sábado, 22 de outubro de 2011

ENEM - dicas de última hora - 2012

Quem manteve a disciplina e estudou ao longo do ano, não vai ter problemas com as provas. Basta não relaxar. Aproveite esses últimos dias para ler e se inteirar de assuntos atuais. É possível que muitos acontecimentos importantes na política e na economia sejam aproveitados pelo Enem.

Quem não estudou o suficiente, ou acredita que relaxou, não tem porque se desesperar. Agora não adianta nada se enterrar nos estudos, pois não dá tempo para recuperar o tempo perdido. Continue seu ritmo de estudos e lembre-se que mesmo quem estudou pouco pode tirar uma boa nota. Basta lembrar que o Enem é baseado em competências, e saber interpretar corretamente gráficos e textos é fundamental.

Os estudantes que estão se preparando para fazer a prova do Enem no dia 22 e 23 de outubro precisam ficar atentos. Questões de atualidades, por exemplo, exigirão do candidato a compreensão e interpretação do tema. Por isso é fundamental o estudo quase religioso dos assuntos, para que cada matéria seja aprofundada da maneira mais precisa e objetiva deixando assim o lado superficial.
Temas relacionados ao maior vazamento de petróleo do mundo, ocorrido nos Estados Unidos no Golfo do México, são algumas das apostas para a prova. Assim como o terremoto que abalou o Haiti, revelando tamanha gravidade da falta de ajuda humanitária no mundo. E muito provavelmente o polêmico enriquecimento de urânio do Irã, em que o Brasil exerceu papel fundamental nas negociações diplomáticas. Questões que parecem ser simples e fáceis exigirão a compreensão e análise do candidato. A COP-16 realizada no ano passado e as discussões ambientais, a guerra cambial e o crescimento da China. As discussões acerca da camada  pré-sal, plataforma continental, Hidrocarboneto (Petróleo) e Zona econômica Exclusiva. 
Não faça a prova desconhecendo totalmente os seguintes temas:

- CNUMAD ( Rio 92), pois está relacionada a Conferência internacional que o Brasil sediará no próximo ano:  RIO + 20
- Primavera Árabe, pois o tema esteve no centro dos assuntos internacionais nos últimos meses culminando, nessa semana, com a morte do ditador Líbio. Embora os eventos mais recentes - últimos dois meses - relacionados ao tema tenham poucas possibilidades de cair na  parte de História, poderão fazer parte de sua argumentação em uma redação que, por acaso, aborde o tema.

Dicas finais:
 Acredite que você é capaz, logo, faça uso da paciência e tranquilidade, pois acredito que, numa prova extensa como o ENEM, o conhecimento não é o único fator que importa. Procure relaxar. Caso perceba que está tenso, pare, respire e então recomece, pois o nosso raciocínio funciona melhor quando estamos relaxados.
Em relação ao tempo: Quando falo de relaxar não inclui deixar de administrar o Tempo.
Divida o total das questões e o tempo de prova em quatro ou oito partes, acompanhando o tempo gasto em cada parte, pois assim você será capaz de acompanhar seu tempo de prova.
"Procure manter o mesmo ânimo e concentração da primeira a última questão" Procure evitar aquele sentimento "Caramba, ainda faltam 30, 40 questões. Ah meu Deus!!!" Afirmo, sem medo, que esse sentimento é capaz de prejudicar excelentes candidatos que, embora intelectualmente preparados, sucumbem diante de outros, menos  preparados, mas que mantem o  foco até o final.

Boa prova!

Professor Arão Alves


Boa Prova

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Questões discusivas com gabarito sobre a Regência e o 2º reinado


1. (Fuvest 2009)  Sobre o impacto da Guerra do Paraguai na sociedade brasileira.

Explique:
a) o impacto social da guerra para o Brasil;
b) explique seus  desdobramentos políticos para o Império.
  
2. (Ufc 2009)  Leia o texto a seguir.

Não há sombra de dúvidas sobre o papel central desempenhado pelos muçulmanos na rebelião de 1835. Os rebeldes - ou uma boa parte deles - foram para as ruas com roupas usadas na Bahia pelos adeptos do islamismo. No corpo de muitos dos que morreram a polícia encontrou amuletos muçulmanos e papéis com rezas e passagens do Qur'ãn usados para proteção.
            REIS, João José. "Rebelião escrava no Brasil". São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 158.

Considerando os fatos descritos no episódio acima e o tema do islamismo, responda o que se pede a seguir.

a) Por qual nome ficou conhecida a rebelião de que trata o texto?

b) A imigração forçada de africanos ao Brasil trouxe para trabalhar como escrava uma população de diversas etnias, que pode ser englobada genericamente em dois grupos bastante distintos, com claras diferenciações culturais e linguísticas.
I. De qual desses dois grupos se originou a maior parte dos africanos islamizados?
II. De qual área geográfica da África esse grupo procede?

c) Como ocorreu a propagação da religião islâmica entre as populações da região africana citada acima?
  
3. (Unicamp 2007)  Iniciada como conflito entre facções da elite local, a Cabanagem, no Pará (1835-1840), aos poucos fugiu ao controle e tornou-se uma rebelião popular. A revolta paraense atemorizou até mesmo liberais como Evaristo da Veiga. Para ele, tratava-se de gentalha, crápula, massas brutas. Em outras revoltas, o conflito entre elites não transbordava para o povo. Tratava-se, em geral, de províncias em que era mais sólido o sistema da grande agricultura e da grande pecuária. Neste caso está a revolta Farroupilha, no Rio Grande do Sul, que durou de 1835 a 1845.
            (Adaptado de José Murilo de Carvalho. "A construção da ordem: a elite imperial. Teatro de sombras: a política imperial". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 252-253.)

a) Segundo o texto, o que diferenciava a Cabanagem da Farroupilha?
b) Quais os significados das revoltas provinciais para a consolidação do modelo político imperial?
c) O que levava as elites agricultoras e pecuaristas a se rebelarem contra o poder central do Império?
  
4. (Fgv 2007)  Em torno de dois grandes rios, Uruguai e Paraguai, quatro nações dividiam fronteiras: Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Nesse terreno, quatro contendores aplicavam-se bem em desempenhar o complicado jogo das fronteiras. Em questão, estavam, além do acesso à livre navegação da bacia platina, a hegemonia na região e os diferentes processos por que passavam os Estados nacionais envolvidos.
            (Lilia Schwartz, "As barbas do Imperador".)

O texto registra algumas questões que estiveram na origem de uma das mais importantes disputas militares entre países sul-americanos no século XIX: a Guerra do Paraguai (1864-1870).
A partir dessas informações, EXPLIQUE dois motivos do envolvimento do Império do Brasil nesse conflito.
  
5. (Unicamp 2006)  Em 1910, o crítico literário Sílvio Romero escreveu sobre a década de 1870. Em sua perspectiva, alguns acontecimentos teriam feito surgir uma nova geração de intelectuais brasileiros engajados no que ele considerava como pensamento moderno. Para o autor, a Guerra do Paraguai mostrara os defeitos de nossa "organização militar e o acanhado de nossos progressos sociais, desvendando repugnantemente a chaga da escravidão".
            (Adaptado de Ronaldo Vainfas (dir.), "Dicionário do Brasil Imperial". Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 309.)

a) Cite uma característica da geração de intelectuais de 1870.
b) Explique de que maneira a Guerra do Paraguai "desvendava a chaga da escravidão".
c) Indique duas formas de engajamento dos intelectuais abolicionistas.
  
6. (Ufrrj 2006)  "O Acontecimento mais sério de que o Brasil participou na América Latina foi também na América Meridional envolvendo o Paraguai fortemente militarizado e Solano Lopez contra a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai). Conflito sangrento iniciado em 1865, só terminou cinco anos depois com a derrota do Paraguai".
            (José Ribeiro Jr. 'O Brasil Monárquico em face das Repúblicas Americanas'. In: Motta, Carlos Guilherme (org.). "Brasil em Perspectiva". São Paulo: DIFEL, 1968.

a) Aponte duas razões para a eclosão da "Guerra do Paraguai".
b) Explique uma consequência da guerra para a vida política do Império brasileiro.
  
7. (Ufu 2006)     A "estabilidade" do Segundo Reinado e a consolidação de um Estado nacional dependente mal esconderam tumultos, conflitos, levantes e movimentos revolucionários, como a Cabanagem, a Praieira, a Farroupilha, que seriam, cada um a seu tempo, fatigados pelos mecanismos políticos e culturais criados nessa longa história de formação do patronato politico brasileiro, detentor da ideia desmobilizadora de um Brasil "estável", unido, denso.
            Adaptado de MOTA, C. Guilherme. Ideias de Brasil. In: "Viagem Incompleta. Experiência Brasileira (1500-2000)". Formação: histórias. São Paulo: SENAC, 2000, p. 236.

A partir das afirmações transcritas, responda:
a) Que motivações foram comuns aos conflitos e movimentos revolucionários ocorridos no periodo Regencial no Brasil?
b) Que aspectos diferenciam a Revolta dos Malês, ocorrida na Bahia, dos outros movimentos do mesmo período?
c) Cite duas medidas tomadas pelo governo imperial brasileiro, a partir do 20. Reinado, diante das revoltas que vinham ocorrendo desde o periodo regencial.
  
8. (Ufrrj 2005)  O texto a seguir refere-se ao período da política regencial no Brasil .

A Câmara que se reunia em 1834 trazia poderes constituintes para realizar a reforma constitucional prevista na lei de 12 de outubro de 1832. De seu trabalho resultou o Ato Adicional publicado a 12 de agosto de 1834 (...) O programa de reformas já fora estabelecido na lei de 12 de outubro, o Senado já manifestara sua concordância em relação ao mesmo e só havia em aberto, questões de pormenor. No decorrer das discussões poder-se-ia fixar o grau maior ou menor das autonomias provinciais, mas já havia ficado decidido que não se adotaria a monarquia federativa, o que marcava como que um teto à ousadia dos constituintes.
            CASTRO, P. P. de. A experiência republicana, 1831-1840. In: HOLANDA, S. B. de. "História Geral da Civilização Brasileira." v. 4. São Paulo: Difel, 1985, p. 37.

a) Cite duas reformas instituídas pelo Ato Adicional de 12 de agosto de 1834.
b) Aponte a razão pela qual se costuma dizer que a Regência correspondeu a uma "experiência republicana".
  
9. (Ufrj 2004)  "Ficou célebre uma frase atribuída ao político pernambucano Holanda Cavalcanti:

- Nada se assemelha mais a um 'saquarema' do que um 'luzia' no poder.

'Saquarema', nos primeiros anos do Segundo Reinado, era o apelido dos conservadores [...] 'Luzia' era o apelido dos liberais [...] A ideia de indiferenciação dos partidos parecia também confirmar-se pelo fato de ser frequente a passagem de políticos de um campo para o outro"
Fonte: Fausto, Boris. Histórias do Brasil. São Paulo, Edusp, 1995, p. 180

O texto dá conta de algumas características das correntes políticas que predominavam no Segundo Reinado (1840-1889).
a) Identifique um aspecto comum e outro divergente entre as correntes políticas mencionadas no texto.
b) Explique uma diferença entre a experiência parlamentarista brasileira do Segundo Reinado e o modelo liberal inglês da mesma época.
  
10. (G1 1996)  Há diferenças nas tendências políticas entre Liberais e Conservadores? Explique.
  
11. (G1 1996)  As revoltas durante o Período Regencial, receberam  denominações diferentes. Complete o nome das revoltas:

LOCALIDADES                                    REVOLTAS

Grão-Pará                                            _____________________________

Maranhão                                            _____________________________

Bahia                                                   _____________________________

Rio Grande do Sul                    _____________________________
  
12. (Ufpr 1991)  "O novo Imperador é um conhecedor e admirador das formas de governo liberais da Europa. Procura seguir as regras do parlamentarismo inglês, que já estavam sendo seguidas por outros países. Com o correr do tempo, a alternância dos partidos vai adquirir uma certa regularidade".
            (LACOMBE, Américo J. HISTÓRIA DO BRASIL. São Paulo, Ed. Nacional, 1979. p.169.)

O texto refere-se à política do Segundo Reinado, com D. Pedro II, cujas linhas gerais são bem definidas por sua regularidade. Procure definir tais linhas, indicando os partidos políticos envolvidos e o papel político do Imperador.
 
Gabarito:  

Resposta da questão 1:
 a) A ilustração refere-se à contradição existente entre a continuidade da escravidão e a participação dos escravos em defesa da pátria na Guerra do Paraguai.

b) A Guerra do Paraguai contribuiu para o declínio do Império por contribuir para a promoção dos ideais abolicionistas e republicanos no Brasil. Acrescenta-se ainda que o fortalecimento do Exército Brasileiro em decorrência da guerra, levou vários oficiais a se envolver na vida política aderindo ao republicanismo.  

Resposta da questão 2:
 O episódio descrito no texto ficou conhecido como a Revolta dos Malês, que teve a participação de uma maioria de negros muçulmanos. Os africanos trazidos ao Brasil entre os séculos XVI e XIX procederam de duas grandes regiões distintas. Os povos sudaneses, que desembarcaram em maior quantidade na Bahia, eram provenientes da África Ocidental, da grande região do Golfo da Guiné ou Costa da Mina ou, ainda, Costa do Ouro, onde atualmente se localizam Gana, o Benin, a Nigéria e a Guiné, entre outros países. Na Bahia, a maioria dos negros sudaneses islamizados pertencia às populações haussás, e também àquela dos nagôs ou iorubá. Já os povos bantos eram provenientes das atuais regiões do Congo e de Angola. A islamização de populações habitantes da África negra norte-ocidental foi feita a partir do século XI pelo contato delas com os mercadores árabes e berberes, viajantes através do deserto do Saara, principalmente pela rota de Tombuctou. Essas incursões islâmicas provocaram a desagregação do antigo Império de Ghana. No século XVI, início do tráfico de escravos para o Brasil, era o Reino Songai, o atual estado do Mali (daí uma das possibilidades para a origem do termo "malê"), que dominava todo o vale do rio Niger, região original das populações islâmicas (principalmente haussás e nagôs) que chegaram ao Brasil.  

Resposta da questão 3:
 a) A Cabanagem foi uma revolta de caráter popular, realizada pelas camadas despossuídas, representadas pelos cabanos, populações ribeirinhas do Pará. Já a Revolução Farroupilha teve caráter elitista, por ter sido conduzida pelos estancieiros ligados à grande propriedade rural.

b) As revoltas provinciais puseram em risco a unidade do Brasil, na medida em que representaram a defesa de interesses localizados, representados pelas proposições federalistas e/ou separatistas presentes nos movimentos. Assim sendo, a derrota desses movimentos significou a consolidação do centralismo/unitarismo e dos interesses da aristocracia fundiária e escravista que marcaram a política do Segundo Reinado.

c) Essas elites provinciais rebelavam-se fundamentalmente contra o excessivo centralismo do Império, pois aspiravam à autonomia de suas províncias. No caso da Revolução Farroupilha, deve-se acrescentar o descontentamento com as altas taxas cobradas sobre o charque e outros produtos sul-rio-grandenses.  

Resposta da questão 4:
 A participação do Império do Brasil na Guerra do Paraguai foi motivada por fatores como a defesa "da integridade do território brasileiro" diante da invasão paraguaia, o interesse do Império do Brasil "em terminar com os problemas em sua fronteira sul" e assegurar "os interesses políticos e econômicos do país na região do Prata".  

Resposta da questão 5:
 a) Muitos intelectuais adotaram ideais  abolicionistas e republicanos, contestando as estruturas do regime imperial.

b) A participação de negros no exército brasileiro na Guerra do Paraguai, associada ao fato de os parceiros da Tríplice Aliança, Uruguai e Argentina não terem escravos, despertou entre os militares e segmentos intelectualizados a consciência da escravidão como uma instituição abominável, vindo a fortalecer as campanhas abolicionistas.

c) A organização de associações abolicionistas, o apoio às fugas de escravos e a publicação de artigos abolicionistas na imprensa, constituiam as principais formas de engajamento de intelectuais nas campanhas e movimentos pelo fim da escravidão no Brasil.  

Resposta da questão 6:
 a) As disputas pela navegação nos rios da bacia platina; a existência de territórios fronteiriços em litígio; as alianças e contra-alianças entre os países da região (a intervenção do Brasil na política interna do Uruguai, apoiando o Partido Colorado em oposição ao Blanco; a aproximação entre Brasil e Argentina de Mitre e o isolamento político do Paraguai de Solano López)

b) O fortalecimento da identidade nacional, através dos voluntários e a valorização do hino e da bandeira imperiais; a consolidação do Exército brasileiro, até então desprestigiado frente ao poder da Guarda Nacional; o avanço da questão abolicionista pelo emprego de libertos e escravos na guerra.  

Resposta da questão 7:
 a)
- a indiferença dos governos regenciais frente às demandas regionais, apesar da aprovação do Ato Adicional de 1834 que instaurou uma espécie de "federalismo" na monarquia.
- a acentuada crise econômica que atingia os produtos tradicionais da economia brasileira, incluindo o charque gaúcho.

b) Durante as primeiras décadas do século XIX várias rebeliões de escravos explodiram na província da Bahia. A mais importante delas foi a dos Malês, uma rebelião de caráter racial, contra a escravidão e a imposição da religião católica, que ocorreu em Salvador, em janeiro de 1835. Nessa época, a cidade de Salvador tinha cerca de metade de sua população composta por negros escravos ou libertos, das mais variadas culturas e procedências africanas, dentre as quais a islâmica, como os haussas e os nagôs. Foram eles que protagonizaram a rebelião, conhecida como dos "malê", pois este termo designava os negros muçulmanos, que sabiam ler e escrever o árabe. Sendo a maioria deles composta por "negros de ganho", tinham mais liberdade que os negros das fazendas, podendo circular por toda a cidade com certa facilidade, embora tratados com desprezo e violência. Alguns, economizando a pequena parte dos ganhos que seus donos lhes deixavam, conseguiam comprar a alforria.

c)
- A aprovação da Lei Interpretativa do Ato Adicional em 1840 que, entre outras, restaurou o Conselho de Estado e acabou com a relativa autonomia das províncias e suas assembleias. Entretanto, as resistências em relação às mudanças fizeram com que essas discussões durassem quase três anos, a ponto de que somente em maio de 1840 se deu a aprovação da lei de Interpretação do Ato Adicional e a reforma do Código do Processo Criminal só foi aprovada em dezembro de 1841.
- A dura repressão desencadeada sobre as revoltas da Cabanagem (30 mil mortos) e da Balaiada, enquanto o movimento da Farroupilha, de base elitista, mereceu uma negociação onde em 1845 Caxias firmou com Davi Canabarro a Paz do Ponche Verde. Encerrava-se a Revolta dos Farrapos. O acordo de paz foi muito vantajoso para os farroupilhas: anistia aos revoltosos; integração dos oficiais rebeldes ao Exército Imperial com suas patentes; liberdade para os escravos que haviam participado da guerra; taxação sobre o charque platino importado; pagamento pelo Império das dívidas da guerra e indicação pelos farrapos do presidente de sua Província.  

Resposta da questão 8:
 a) Extinção do Conselho de Estado, substituição da Regência Trina pela Regência Una, criação de Assembleias Legislativas nas províncias.

b) Maior autonomia provincial durante o período, conferida, sobretudo pela criação de Assembleias provinciais, mas também a renovação periódica do Regente, por meio de votação.

O governo regencial representou uma vitória dos liberais moderados, que avançaram algumas propostas descentralistas de governo. Mas apesar de derrotados, algumas das propostas dos exaltados foram ao menos parcialmente contempladas. Entre elas está a autonomia provincial. Ora, o modelo de república que estes exaltados tinham na cabeça era precisamente o modelo americano, que punha uma ênfase forte na autonomia das unidades federativas. Assim, apesar de não se tratar de uma federação, tal como a americana, alguns autores têm falado em "experiência republicana" para se referir a algumas das conquistas dos exaltados/republicanos durante a Regência, inclusive o autor citado, Paulo P. de Castro.  

Resposta da questão 9:
 a) Do ponto de vista ideológico, os partidos liberal e conservador não apresentavam diferenças significativas, sendo suas contendas restritas à luta pela posse do poder e com ele o acesso a prestígio e benefícios.
      Como  diferença, os liberais defendiam o fortalecimento do poder da Câmara dos Deputados. Já os conservadores, defendiam restrições às liberdades e ao exercício da cidadania.

b) No Brasil, o Imperador indicava o Presidente do Conselho de Ministros, cargo equivalente ao de Primeiro Ministro, ao contrário do modelo inglês em que o Chefe de Governo era escolhido pelo Parlamento. Considere-se também, que o Imperador poderia dissolver a Câmara de Deputados e convocar novas eleições, caso esta não apoiasse o gabinete de preferência do Chefe de Estado. Os poderes do imperador, eram conferidos pelo Poder Moderador.  

Resposta da questão 10:
 Havia um dito popular no Segundo Reinado que dizia: "nada mais conservador do que um liberal, nada mais liberal do que um conservador" pois de fato os dois partidos representavam a mesma classe social, a das oligarquias agrárias.  

Resposta da questão 11:
 Grão-Pará  Cabanagem      
Maranhão  Balaiada
Bahia  Sabinada
Rio Grande do Sul  Farroupilha  

Resposta da questão 12:
 O Imperador exercia o poder moderador e impedia os conflitos dentro da elite dominante através do Parlamentarismo às avessas, onde os partidos Conservador e Liberal se revezavam no poder.  

Segundo Reinado Vídeo


Dois vídeos sínteses do 2º império. não deixe de ler as observações abaixo de cada vídeo.





Obs: Gostaria de destacar que, embora o video enfatize o incentivo inglês à formação da Tríplice aliança, precisamos lembrar que não havia relação diplomática entre o Império e o governo inglês quando o acordo foi construído. Ademais, O governo inglês, através de seu representante em Buenos Aires, tentou evitar a guerra (documento publicado no livro Maldita Guerra de Francisco Doratioto.) Financiamento inglês ocorreu, mas não podemos confundir o governo britânico com os banqueiros britânicos, que receberam solicitação de empréstimos tanto do Brasil e Argentina quanto do Paraguai.
O Oeste paulista foi o destino da expansão da cafeicultura brasileira após a segunda metade do século XIX; entretanto, mesmo tendo incentivado o trabalho livre, não podemos concluir que não havia trabalho escravo na cafeicultura paulista. Essas observações tem como objetivo evitar conclusões equivocadas em relação a trechos específicos do vídeo.
Bons estudos!
Professor Arão Alves


Entre as leis que fazem parte do processo abolicionista não podemos esquecer da Euzébio de Queirós (1850) que pôe fim ao tráfico negreiro. Também não podemos esquecer que a lei do ventre livre de 1871 não tratou apenas de da liberdade dos negros nascidos a partir de então, mas criou direitos civís para o escravos como o direito de pecúlio e herança.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Doratioto, Francisco - Guerra do Paraguai

Segunda-feira, Julho 25, 2011

Entrevista com o professor Francisco Doratioto



Fonte: Radio Brasil Atual


Marilú Cabañas: Dentro da série “Quem Tem Medo da Guerra do Paraguai”, conversamos com historiadores que publicaram livros entre os anos 1960 e 1980, sobre o conflito mais sangrento da América do Sul, que envolveu de um lado Brasil, Argentina e o Uruguai e de outro o Paraguai. Ouvimos o argentino León Pomer, autor do livro “A Guerra do Paraguai - Grande negócio”, e o brasileiro Júlio José Chiavenato que escreveu “Genocídio Americano - A Guerra do Paraguai”. Os dois apontam que a Inglaterra teria apoiado os países aliados contra o Paraguai. Hoje o nosso diretor de jornalismo, Oswaldo Luiz Colibri Vitta, e eu vamos conversar com o historiador Francisco Doratioto, mestre e doutor em História das Relações Internacionais, pela Universidade de Brasília, professor da UNB, membro do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, membro correspondente da Academia Paraguaia de História e também da Academia Argentina de História, e autor do livro “Maldita Guerra”.
Bom dia, professor Francisco Doratioto.
Francisco Doratioto: Bom dia. É um prazer falar com vocês e seus ouvintes.
Colibri: Bom dia, professor. Já vamos começar aqui. A primeira pergunta para o senhor é, se o senhor é a favor da abertura desses arquivos sobre a Guerra do Paraguai e se o senhor acha que vai ter alguma novidade ai que o senhor ainda não sabe a respeito, se forem abertos os arquivos?
Francisco Doratioto: Olha, se existisse esse arquivo, se insistir nesse arquivo, eu seria a favor. Mas, eu acho muito improvável que exista um arquivo Guerra do Paraguai, como é citado normalmente que seria um arquivo ultrassecreto e se é tão ultrassecreto, eu me pergunto como as pessoas sabem que ele existe. Mas um arquivo ultrassecreto Guerra do Paraguai no arquivo do Itamarati, eu pesquisei lá durante meses, mais de uma vez, conheço diplomatas, conheço os arquivistas e quando eu pesquisei fiquei dois meses pesquisando numa das minhas pesquisas, fiz amizade com os funcionários, e nunca ninguém falou, ninguém conhece este arquivo. Eu lhe digo o seguinte, eu acho que se existir um arquivo secreto Guerra do Paraguai, no Itamarati, eu diria que os diplomatas brasileiros merecem ganhar o Oscar de melhor ator, porque eles são excelentes atores.
Colibri: Mas dizem também que alguns arquivos estão com o exército brasileiro, na verdade, não é?
Francisco Doratioto: Eu não conheço nenhum historiador que... eu não trabalhei no arquivo do exército para esclarecer, é que normalmente a referencia é sempre o Itamarati. No Itamarati, eu acho altamente improvável que exista qualquer coisa. No exército, eu não trabalhei mas eu conheço outros historiadores que trabalham na Guerra do Paraguai e nenhum deles levanta, ou tem a suspeita de que exista um arquivo secreto. Eu escuto apenas na imprensa normalmente ou de políticos. Veja bem, eu não digo que não exista documentos inéditos ainda sobre a Guerra do Paraguai, porque um arquivo tem milhões de documentos. O pesquisador que vai em arquivo, sabe a dificuldade que é, porque os documentos são do século dezenove e foram catalogados. Então por exemplo; pode ser que um documento referente a uma batalha naval, o tema principal desse documento fosse transporte de carvão, vamos supor, e pode estar classificado em transporte marítimo, ou carvão, então esse documento está mal classificado ou está com outra classificação e ainda não foi pesquisado, então eu não descarto a hipótese de que existam documentos inéditos sobre a Guerra do Paraguai.
Colibri: Agora quem citou isso, é uma pessoa que já está mexendo com alguns arquivos ligados à ditadura militar, que é o caso do ex secretário de Direitos Humanos, o Paulo Vannuchi, ele foi uns do que citou, só para citar.
Francisco Doratioto: Pois é, mas ele não é historiador.
Colibri: É ele não é historiador, mas ele por exemplo levantou um livro chamado “Direito à Verdade e à Memória” onde ele pediu para historiadores, jornalistas e escritores e pessoas de pesquisa, naturalmente, que investigassem a ditadura militar. Se ele está se referindo à Guerra do Paraguai, nós aqui professor, imaginamos que têm alguma coisa que ainda não foi revelada, não sei.
Francisco Doratioto: O Mário Miranda também, o ex ministro, citou e citou textualmente, o Itamarati.
Colibri: É verdade.
Francisco Doratioto: E eu quando vi isso fiquei pasmo, porque realmente eu acho que é um pouco lenda urbana sabe? Mas tomara que exista um arquivo com documentos inéditos, porque é o sonho de todo historiador, mas eu acho que se houver, provavelmente, é que estão mal organizados. Veja bem, é que existia um arquivo secreto realmente, proibido de ser pesquisado, chamado Guerra do Paraguai no Itamarati. Ele foi liberado em 1997 e eu acho que a origem de toda essa celeuma é que as pessoas não tomaram conhecimento que existia esse arquivo e que ele foi liberado. Esse de 1997, e que foi uma decepção, não tinha quase nada interessante. Não tinha nenhuma novidade. Dificilmente vai surgir um documento bombástico, que pudesse alterar as grandes interpretações que já existem sobre a guerra.
Colibri: Pode acontecer de ter algum texto que desabone de certa forma, o Duque de Caxias ou o Conde D’Eu, que tiveram participações importantes?
Francisco Doratioto: Olha, o Duque de Caxias eu acho difícil que ele saia menor numa relação de documentos. O Caxias foi verdadeiramente, um grande chefe militar na guerra, primeiro. Segundo, ele foi corajoso. Em terceiro, para os padrões da época ele foi patriota, quer dizer, ele era um senador de um partido conservador, já tinha feito tudo na vida, já tinha sido Primeiro Ministro e poderia ter ficado no Rio de Janeiro tranqüilo curtindo a aposentadoria dele, e ele com sessenta e poucos anos, e naquela época era ser muito velho ter sessenta e poucos anos, ele vai para a Guerra do Paraguai em um momento em que o exército aliado estava prostrado psicologicamente. E todo o desempenho dele na guerra, enfim, pode-se criticar opções que ele fez, etc, mas no geral, eu creio que a figura do Caxias não tem como ser diminuída. Agora o Conde D’Eu, ele é quase que uma unanimidade entre os historiadores o desempenho dele na guerra, aspectos de crueldade, ele não queria ir para a guerra, foi forçado para a guerra, D. Pedro o obrigou a ir, enfim, eu acho que sobre o Conde D’Eu pode ter documentação desabonadora, mas nós já conhecemos a figura histórica dele e boa parte dos historiadores, ou quase todos, não têm uma visão positiva do papel dele não. Acho que essa questão de o nome Guerra do Paraguai aparecer toda hora, me soa mais como uma cortina de fumaça para esconder outras coisas mais importantes.
Marilú Cabañas: Por exemplo?
Francisco Doratioto: Não sei. Mas por exemplo, a construção de Itaipu. O preço de Itaipu original ficou muito mais caro que o preço original. Como é que fica? Lá no Paraguai é conhecido, por exemplo, que fortunas que foram construídas em Itaipu. Agora, será que do lado brasileiro, por exemplo, todos os gastos foram de acordo com o plano original e o dinheiro foi bem gasto? Uma hipótese, não é?
Colibri: O senhor está “levantando uma lebre”!
Francisco Doratioto: Ou outra por exemplo, mais recente, é a questão do Programa Nuclear Brasileiro, quer dizer, nós sabemos que o Brasil, isso a imprensa publicou, desenvolveu uma tecnologia nova de centrífugas, etc e tal. Quer dizer, se a gente liberar esse tipo de informação, é uma informação industrial que tem um custo financeiro, quer dizer, então de repente nós não temos interesse em... estou supondo, é uma hipótese um raciocínio, nós não temos interesse em liberar esse tipo de informação. Imagine por exemplo, um arquivo sobre a Amazônia, dos anos sessenta e setenta. A gente vai falar assim; mas só tem quarenta anos, já está na hora de liberar, mas de repente o sistema de defesa militar da Amazônia hoje, utiliza estratégias e informações que vem da década de sessenta, então revelar um documento da década de sessenta sobre isso, pode neste momento, comprometer a defesa da Amazônia.
Marilú Cabañas: Uns quarenta anos está bom também, não é professor?
Colibri: Da Guerra do Paraguai, tem que liberar tudo, se é que tem alguma coisa!
Francisco Doratioto: Mas é o que eu te falei, eu acho que não existe um arquivo secreto Guerra do Paraguai no Itamarati, acho altamente improvável. E se existe em outro lugar eu não posso dizer.
Marilú Cabañas: Doratioto, em relação a participação ainda de Duque de Caxias, em relação à ida de escravos, dos negros, para a guerra, seria algo desabonador ou não?
Francisco Doratioto: Olha, tanto o Brasil quanto o Paraguai, tinham escravos, é bom lembrar isso. O Paraguai tinha escravos. O Paraguai em uma população de quatrocentos mil pessoas, os números são muito variáveis, quase todos os números sobre a guerra são variávies, mas eu penso que seria um número mais próximo do real; quatrocentas mil pessoas, tinha quarenta mil escravos negros. Era diferente da escravidão no Brasil, porque escravidão não era o pilar do sistema econômico, do sistema produtivo do Paraguai, mas era o pilar do sistema brasileiro. Então os dois tinham escravos. Os escravos paraguaios, das estâncias da pátria, foram mobilizados e enviados primeiro para a frente de batalha, tanto é que a população paraguaia praticamente não tem negros, morreram em combate. No caso brasileiro, também foram enviados os escravos, mas atenção, existe uma confusão. Existe um historiador do Rio de Janeiro, excelente Ricardo Salles, ele estudou a escravidão na guerra e ele faz esse alerta; não se pode confundir negros na Guerra do Paraguai, com escravos. Quer dizer, todo escravo era negro, mas nem todo negro era escravo. Então, segundo os cálculos do Ricardo Salles, no máximo dez por cento dos combatentes seriam compostos de escravos libertos para irem para a guerra.
Marilú Cabañas: Libertos, não é?
Francisco Doratioto: É. Libertos para irem para a guerra, quer dizer; era o preço mas seria dez por cento. Não é como se diz, a maioria da tropa ou a maioria da tropa. Agora de negros não. De negros teria mais porque existiam negros libertos, mulatos, assim como brancos pobres também eram obrigados a irem para a guerra, etc.
Marilú Cabañas: Estamos conversando com o professor Francisco Doratioto, autor do livro “Maldita Guerra”, Colibri.
Colibri: Na abertura do seu livro, o senhor comenta alguns fatos colocados por outros historiadores no caso León Pomer, do livro “A Guerra do Paraguai – Um grande Negócio”, e também cita o escritor Júlio José Chiavenato que escreveu “O Genocídio Americano - A Guerra do Paraguai”, o senhor fala sobre revisionismo. Eu queria que o senhor explicasse para o ouvinte o que é isso, e por que o senhor claramente contesta o que eles escreveram na sua pesquisa.
Francisco Doratioto: O revisionismo, esses revisionismo; há vários revisionismos históricos, ele surgiu basicamente nos anos sessenta, e o León Pomer, que é um historiador argentino sério, competente, ele escreveu um livro chamado, no original, na primeira edição “La Guerra del Paraguay - Gran Negocio”, em que ele faz uma análise da guerra que teve profundo impacto na Argentina. Faz pesquisa em fonte primária, quer dizer, vai em documentos. O livro dele tem notas e rodapé, quer dizer, um trabalho de historiador não é um trabalho de narrativa pura e simples, quer dizer, nós não damos informações sem dizer de onde tiramos essa informação, que é para o outro pesquisador ir lá e de repente, uma outra interpretação pode esclarecer. Nem sempre o documento não fala sozinho, eu tenho que interpretar o documento, eu o historiador. E um historiador com uma outra formação, as vezes mais perspicaz ou algo assim, pode de repente chegar a conclusões diferentes e melhores, por isso nós pomos notas em rodapé. Primeiro para indicar que nós não estamos inventando e segundo para permitir que a pesquisa cientifica avance; o conhecimento avance. Então o León Pomer escreveu esse livro e nesse livro ele responsabiliza o governo inglês e os banqueiros ingleses. Mais tarde quando ele esteve exilado no Brasil, ele escreveu um livro de divulgação, numa série chamada História Popular, nossa guerra contra esses soldados, que tinha a foto de um soldado paraguaio na capa e que ele diz textualmente que a Inglaterra foi a responsável pela guerra. No entanto nos anos oitenta ele escreveu uma carta para um historiador, pesquisador brasileiro, que é o primeiro que vai contestar essa visão, Luiz Alberto Moniz Bandeira. Ele tem muitos livros e é muito conhecido e ele fez uma tese doutorado que foi publicada com o título de “O Expansionismo Brasileiro”, e nesse livro tem uma carta do León Pomer para o Moniz Bandeira, os dois são amigos pessoais, em que o León Pomer reconhece que não foi a Inglaterra que fez a guerra e depois ele também publicou um artigo, se eu não me engano, no antigo Caderno Mais, da Folha de São Paulo, que ele diz que ele não falou que era a Inglaterra e sim os banqueiros ingleses que tinham interesse na guerra.
Colibri: Qual é a opinião do senhor, o senhor que estudou tanto...
Francisco Doratioto: Olha para Inglaterra, essa guerra foi uma guerra no fim do mundo que tinha pouco interesse para ela e muito interesse para nós. A Inglaterra, o governo inglês, em si, permaneceu neutro, primeiro. Segundo, há de se lembrar que quando começou a guerra, o Brasil estava de relações diplomáticas rompidas com a Inglaterra. Nós não tínhamos relações diplomáticas. Então não poderíamos ser agentes, suposto agentes, do imperialismo inglês na região. Terceiro, os banqueiros efetivamente emprestaram dinheiro, mas não só Brasil e Argentina, tentou emprestar dinheiro na Inglaterra, o Solano López também. Nós temos que lembrar que o capital, ele não tem patriotismo, ele não tem nacionalidade, ele busca lucro. Então um banqueiro ele empresta dinheiro para quem pode devolver esse dinheiro com juros. Agora o Paraguai, também tem que se lembrar disso, Solano López que começa a guerra, quer dizer, o Solano López que ataca o Brasil, Mato Grosso primeiro depois o Rio Grande do Sul e o Solano López que ataca a Argentina. A Guerra do Paraguai, chamada A Guerra do Paraguai, há outras designações, Guerra do Tríplice Aliança,por exemplo, não é uma guerra iniciado pelo Brasil e nem pela Argentina.
Marilú Cabañas: Mas professor, no seu livro mesmo, o senhor não fala que, falando das origens dessa guerra, que o Brasil teria invadido primeiro o Uruguai, não é isso?
Francisco Doratioto: Sim, esse vai ser o pretexto para o Solano López invadir o Brasil, quer dizer, o Solano López estabeleceu como objetivo, como interesse nacional paraguaio, que não houvesse intervenção argentina e brasileira e como estava havendo no Uruguai para depor o Governo Blanco, do Partido Blanco, porque era um governo que tinha convencido Solano López, aparentemente, a gente não pode ter certeza disso, mas a documentação leva a pensar isso, que Brasil, Argentina iriam invadir o Uruguai, ocupar o Uruguai e depois se voltar contra o Paraguai. Agora, pelo direito internacional, e é claro a intervenção brasileira no Uruguai, foi naquele momento um grande erro político. Foi um governo fraco, que era o Governo Liberal do Rio de Janeiro, pressionado pelos interesses dos fazendeiros, dos gaúchos que tinham fazenda no Uruguai e que estavam tendo os seus interesses comprometidos pelo Governo Blanco que não queria mais ficar sob a tutela nem brasileira nem argentina.
Colibri: Na origem que o senhor fala, da origem , o senhor explica bem no livro, o Paraguai era uma país estratégico, a gente está falando sobre a invasão de um, o Solano López invadiu o Mato Grosso e Corrientes na Argentina, o Brasil invadiu o Uruguai a Argentina estava preocupada com tudo isso. A questão era estratégica porque o Paraguai fica em uma posição estratégica, não é?
Francisco Doratioto: Na realidade uma posição estratégica para o Brasil, porque nós temos que lembrar que a ligação Mato Grosso era uma província, na época chamada província, mas o que é hoje o estado do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, porque a província de Mato Grosso era isolada do resto do país, então por exemplo, quando Solano López atacou Mato Grosso, a notícia por terra vinda a cavalo, demorou dois meses para chegar ao Rio de Janeiro. Era impossível por exemplo, transportar víveres, alimentos, comunicações, então esse caminho, por terra mesmo, somente será possível em 1912 e com a Ferrovia Noroeste do Brasil que vai chegar em Mato Grosso. Antes disso, antes de 1912 até o começo do século vinte, tinha que se descer navegando pela costa brasileira, subir o Rio da Prata, navegar o Rio Paraná e Paraguai passando por Assunção. Então para o governo brasileiro, para o Império do Brasil a manutenção da unidade territorial do país, quer dizer a manutenção de Mato Grosso no império, passava pela livre navegação do Paraguai, um pressuposto necessário.
Colibri: Esses rios Paraguai, Paraná e Rio da Prata, estratégicos e claramente na questão do comércio. O senhor acredita que todo começo de guerra tem a questão política sim, mas a questão econômica, ele é que norteia a invasão de um país, ou a declaração de Tríplice Aliança, três países contra o Paraguai?
Francisco Doratioto: Olha, cada guerra, é uma guerra. Cada guerra tem um motivo. Agora no caso da Guerra do Paraguai, por exemplo, o Moniz Bandeira, ele vai mais por um viés... ele não chega a assumir totalmente, mas ele dá uma ênfase no aspecto econômico dizendo o seguinte; Carlos Antonio López, que foi um grande estadista, tinha uma visão de longo prazo, era um homem muito inteligente, ele procurou abrir o país após a morte do ditador anterior, o Francia, que morre em 1840, e ele envia inclusive, alguns estudantes para a Europa para estudar engenharia, etc. E contrata uma empresa inglesa para representar os interesses do Paraguai, porque o Paraguai não tinha serviço diplomático. Então essa empresa inglesa chamava-se Blit and company, ela foi responsável pelo equipamento da primeira ferrovia que o Paraguai tem enviado a Inglaterra, telégrafos, contrata engenheiros, médicos na Europa e foram enviados para o Paraguai. Esse pessoal, esses duzentos a trezentos ingleses mais ou menos, escoceses, eles vão ser responsáveis por um salto de modernização no Paraguai no final dos anos de 1850, começo dos anos de 1860. Só que para fazer isso o Paraguai precisava de dinheiro, ou seja, precisava aumentar as suas exportações e basicamente o que o Paraguai exportava era erva mate para o Rio da Prata e segundo Moniz Bandeira, ele mostra no início dos anos de 1860, havia uma decadência, uma queda do preço do mate no Rio da Prata e um dos concorrentes, quer dizer, o outro concorrente que era exatamente o mate produzido no Brasil. Então ai , Solano López, que assumiu o poder em 1862, teria começado a se interessar em achar um outro caminho para exportar o mate para o comércio externo que seria através do porto de Montevideo e não de Buenos Aires e portanto, daí o interesse de Solano López em apoiar o governo Uruguaio que estava sendo hostilizado pelos governos brasileiros e argentino.
Marilú Cabañas: Estamos conversando com Francisco Doratioto, historiador, professor da Universidade Federal de Brasília e autor do livro “Maldita Guerra”. Nós vamos fazer um intervalo e voltamos já, já.
Bloco II
Marilú Cabañas: Voltamos a conversar com professor Francisco Doratioto, historiador, professor da Universidade Federal de Brasília e autor do livro “Maldita Guerra”. Professor, ainda sobre a participação da Inglaterra na Guerra do Paraguai, o jornalista Júlio José Chiavenato disse que o primeiro rascunho do Tratado da Tríplice Aliança, foi feito pelo embaixador da Inglaterra em Buenos Aires, Edward Thornton, portanto o governo inglês já teria o conhecimento dessa guerra?
Francisco Doratioto: A Inglaterra não tinha interesse era na guerra. No meu livro está publicado e você pode ver ai, a carta desse diplomata o Thornton que ele cita, o Thornton tem uma carta dele para o Ministro das Relações Exteriores do Paraguai, depois que o Paraguai prendeu o navio, Marques de Olinda em Assunção, e que ele percebe que vai haver a Guerra do Paraguai com o Brasil, ele escreve uma carta para o Ministro das Relações Exteriores do Paraguai, oferecendo seus préstimos pessoais para evitar uma guerra. Como eu sabia que ninguém ia acreditar nisso, apesar de eu ter um título, ser um professor universitário, em princípio a minha palavra ser crível e inclusive eu coloquei a fotocópia da primeira página dessa carta dentro do meu livro. Está ai.você pode olhar.
Colibri: É verdade.
Francisco Doratioto: Uma coisa é a gente inventar uma historinha bonitinha, conspiratória, coerente internamente, que a Inglaterra queria destruir um suposto país industrializado, que não tinha indústria, acrescento, e outra coisa é ir no documento e ver o documento. E a documentação britânica, que já foi também pesquisada também, enviada do Rio da Prata dos diplomatas. Os diplomatas britânicos no Rio da Prata, a correspondência deles é muito negativa em relação ao Solano López. Porque o Solano López efetivamente era um tirano. Ele era um tirano e se tornou sanguinário durante a guerra. Ele mandou açoitar a mãe, e fuzilar os irmãos, enfim, é claro que ele não tinha uma boa imagem junto aos diplomatas. Mas uma coisa é a posição dos diplomatas e outra é a do governo inglês. O governo inglês manteve uma neutralidade, agora é o que eu estava dizendo antes, os banqueiros por exemplo, emprestaram dinheiro. Claro, emprestaram dinheiro a quem podia pagar e dar lucros para eles. Agora, o banqueiro inglês é uma coisa, o governo inglês não é a mesma coisa.
Marilú Cabañas: Qual é a sua opinião a respeito dessa participação dos banqueiros ingleses segundo León Pomer, graças a esses empréstimos, é que a guerra se prolongou ainda mais. Quer dizer o capital, então o lucro justifica então o genocídio?
Francisco Doratioto: Não, primeiro eu... essa palavra genocídio eu questiono o uso. O genocídio é um termo bem técnico, é o objetivo de extinguir, exterminar ou um povo por sua cultura ou por sua etnia. Não é o caso da Guerra do Paraguai. Agora...
Marilú Cabañas: Noventa e cinco por cento da população masculina, a partir de sete anos de idade foi exterminada, não é isso? Ou os dados estão errados?
Francisco Doratioto: Olha vamos voltar para os banqueiros e depois vamos para esta questão para mantermos a ordem.
Colibri: É depois o senhor explica o negócio dos números que são polêmicos.
Francisco Doratioto: Mas a questão dos banqueiros, por exemplo, o dinheiro que o Brasil, eu não tenho os dados quanto a Argentina, mas o dinheiro que o Brasil gastou na guerra que foi em torno de seiscentos e doze mil contos de réis, só para dar uma idéia, na época o orçamento anual do governo brasileiro no primeiro ano antes da guerra, no último ano de paz; foi de cinqüenta e quatro, cinqüenta dois mil contos de réis. Então a Guerra do Paraguai custou equivalente a dez anos ou doze anos dos gastos públicos brasileiros. Desse dinheiro que foi gasto pelo Brasil, apenas doze por cento vieram de empréstimos da Inglaterra. Da Argentina deve ter sido mais, mas não deve ter chegado a trinta por cento não, só para dar o número concreto. Segundo, quanto aos números de perda do Paraguai, ai sim é tudo muito nebuloso. Nós não sabemos quantos soldados o Brasil enviou para a guerra. Por exemplo, há um número de cinqüenta mil, há um número de cem mil e há quem diga como Ricardo Salles que foram cento e cinqüenta mil. Nós não sabemos o número em mortes. Eu por exemplo, eu trabalho mais com a idéia que foram cento e vinte mil e no Paraguai morreram cinqüenta a cinqüenta e cinco mil brasileiros. Mas o Ricardo Salles fala que morreram cem mil, quer dizer, de toda forma é uma perda enorme independente do número absoluto.
Colibri: É verdade.
Francisco Doratioto: O fato concreto é que as perdas foram muito grandes e no lado paraguaio também que boa parte dos homens paraguaios morreram, também é verdade. Mas, atenção, tanto do lado brasileiro quanto do lado paraguaio, a maior parte das mortes não se deram em campo de batalha com tiros e sim como vítimas de fome no caso do Paraguai, mas também de doenças como cólera diarréia, etc.
Marilú Cabañas: Professor, o senhor coloca no livro este percentual de mortes entre os paraguaios de 8,7 por cento da população a 69 por cento, é realmente muito amplo esse espectro. Onde o senhor tirou este 8,7?
Francisco Doratioto: Esse número mínimo é uma historiadora norte americana que fez uma pesquisa, porque os números são muito precários, o censo paraguaio era muito precário, o estado era precário. Ela fez um cálculo com projeções, ela chegou ao número máximo de cinqüenta mil mortos paraguaios, que eu acho muito pouco e eu acho que é mais. Depois um outro historiador, Thomas Wigan, que eu conheço pessoalmente, um excelente historiador, fez um estudo e disse que não, que não é isso. Agora o argumento dele, o raciocínio dele é o que eu faço o meu. Nós não sabemos os números exatos, o que nós sabemos é que foi uma grande mortandade e que comprometeu no caso paraguaio, comprometeu demograficamente o crescimento do país para o futuro.
Colibri: Parece que antes de começar a guerra, pelo menos tinham seiscentos mil habitantes, almas, no Paraguai.
Francisco Doratioto: Eu acredito que houvesse quatrocentos mil, porque o último senso sério que se tem notícia, em 1840, apontava duzentos e cinqüenta mil ou duzentos e vinte mil, mas acontece que o governo paraguaio, depois, no começo da década de sessenta, estabeleceu um senso que dizia um milhão ou oitocentos mil, eu não lembro o número exato. Mas dizia por quê? Porque o Paraguai temia uma invasão por parte de Buenos Aires, temia uma guerra. Então para assustar, para intimidar, o governo argentino de evitar uma invasão, inflou o número da população. E muitos historiadores depois ou não necessariamente historiadores, mas enfim, estudiosos com um senso crítico menos desenvolvidos, não se deram conta disso, e iam comparar a população depois da guerra com o último senso dos anos sessenta, e ai diziam; realmente foi um genocídio, mas essa palavra genocídio é mal usada, inclusive porque esvazia o conteúdo verdadeiro que é muito sério e trágico da palavra genocídio, banalizando a palavra.
Colibri: De qualquer forma, mesmo que a gente não adote a palavra genocídio, foi um massacre, ou não?
Francisco Doratioto: Sem dúvida nenhuma. Mas o que você chama de massacre? Massacre é você matar a população ou o soldado desarmado. Em alguns momentos pontuais como a batalha de Peribebuí que o Conde D’Eu ordenou isso; nós tivemos combates leais.
Marilú Cabañas: O duro também é a gente saber que muitas crianças e mulheres civis foram mortos também não é professor?
Francisco Doratioto: Em todas as guerras infelizmente, nenhuma guerra é bonita, não é? Só é bonita depois que termina que se cria lá... não sei o que, agora o uso de crianças , tem duas grandes lendas, eu brinco e chamo de lendas urbanas que hoje em dia tem de internet, que é as crianças paraguaias na guerra e segundo que Caxias teria ordenado jogar corpos no Rio Paraguai com cólera para levar a cólera aos soldados paraguaios. As crianças, efetivamente foram mortas na Batalha de Acosta Ñu. Agora o que não se comenta muito, porque veja bem, houve crueldade dos dois lados, mas normalmente só se fala de um lado, do lado aliado. E a guerra, normalmente, um só mata outro, tendo ódio do outro, se não, não mata. Então, normalmente em um combate corpo a corpo, as duas partes têm ódio entre si e fazem realmente coisas que depois nós analisando friamente, não tendo participado dos eventos, classificamos como uma crueldade, não deixa de ser crueldade, mas tem que contextualizar. Então no caso dos Paraguaios por exemplo na Batalha de Acosta Ñu, primeiro, Solano López enviou crianças para lutar contra soldados profissionais, quer dizer isso é uma coisa impressionante. Segundo, ele mandou essas crianças vestirem barbas. Terceiro, essas crianças estavam a dois quilômetros das tropas aliadas, no meio do mato em uma época em que os binóculos, instrumentos de visualização eram precários. Então a tropa aliada que dá a carga e é a cavalo, só se dá conta que é criança quando está em pleno combate e essas crianças são massacradas efetivamente, são mortas. Mas ai a responsabilidade histórica disso, não pode ser jogada só de um lado. E quem ordenou à crianças combaterem contra soldados profissionais, não tem nenhuma responsabilidade histórica?
Marilú Cabañas: Estamos conversando com Francisco Doratioto, historiador, professor da Universidade Federal de Brasília e autor do livro”Maldita Guerra”. Professor, quais são os motivos que levaram Duque de Caxias a sair da Guerra do Paraguai?
Francisco Doratioto: Existem duas versões. A versão oficial que ele estava doente e efetivamente ele desmaiou na Catedral de Assunção depois da tomada da capital, e uma segunda versão que eu assino embaixo, eu que inclusive recuperei essas informações sobre isso, que ele estava desiludido com a guerra, não acreditava mais na guerra, não via mais sentido na guerra, e achou que a guerra tinha acabado. Porque normalmente quando você ocupa a capital do inimigo, você ganhou a guerra, já ocupou a capital do inimigo.
Colibri: E por que não acabou?
Francisco Doratioto: Pois é, é uma boa pergunta. É uma boa pergunta. Por que Solano López não se rendeu.
Marilú Cabañas: Mas também os países aliados não poderiam ter dito: bom então agora ele não vai se render, mas de qualquer forma, vamos parar com isso e acabou e muda o tratado...
Francisco Doratioto: Mas uma guerra não acaba com uma decisão unilateral. Se a outra parte continuar atirando e bombardeando como você vai acabar uma guerra?
Marilú Cabañas: Bom o Brasil queria continuar, não é professor?
Francisco Doratioto: Como é que você vai acabar a guerra... Agora existe sim um interesse ai e vamos contextualizar politicamente, o interesse de D. Pedro II que a guerra continuasse até o fim. Agora o fim não era matando Solano López. O Tratado da Tríplice Aliança e objetivo, toda a documentação mostra isso, o objetivo central do exército aliado era tirar Solano López do poder.
Colibri: Mas olha, matar o Solano López, também estava nos planos, porque o próprio León Pomer falou isso já aqui, em um texto dele, quer dizer é aquela história sempre passando para a história de hoje; tinha que matar o Bin Laden para acabar com o negócio, quer dizer, eles também tinham a intenção de matar o cara que está ordenando, que está liderando do outro lado. É uma forma de acabar com a guerra, matando ele, acabaria a guerra.
Francisco Doratioto: Não matando o líder adversário nem sempre é, mas nesse caso seria. No caso do Bin Laden matar o Bin Laden, não é o fim da guerra. No caso do Solano López era o fim da guerra efetivamente. Mas veja bem, esse raciocínio não é válido porque em 1867, um diplomata, um primeiro secretário da embaixada da legação britânica em Buenos Aires, foi ao Paraguai para tentar tirar os cidadãos paraguaios que estavam lá dentro. Por exemplo, o engenheiro chefe do exército paraguaio, era um engenheiro britânico. O médico chefe do exército paraguaio, era o doutor Stewart, que era britânico também. E eles estavam impedidos de sair e existia neste momento provavelmente umas cinqüenta famílias britânicas dentro do território paraguaio, impedidas de sair. Então o Golf que era o secretário, foi e estabeleceu uma negociação com o Solano López , que o Solano López se retiraria do Paraguai, e o lado aliado o Caxias estava aceitando, depois o Solano López recuou. Então se o Solano López tivesse pedido para sair da Paraguai, ou tivesse se rendido, a vida dele teria sido preservada. Agora uma coisa é certa, ele não teria sido mantido no poder e seria impedido de voltar ao poder ou seus familiares.
Marilú Cabañas: Existe informações no seu livro, que a paz negociada sem vitória até podia comprometer a estabilidade do regime monárquico brasileiro, é isso?
Francisco Doratioto: Sim por isso que Pedro II, porque Caxias em agosto de 1868, ele está cansado da guerra desanimado, e o partido dele, que era o partido conservador, chegou ao poder, voltou ao poder no Rio de Janeiro, no governo brasileiro, então ele escreve ao Ministro da Guerra, que era amigo pessoal dele, dizendo o seguinte: olha a guerra, militarmente o Solano López não é mais uma ameaça para nós. Não tem mais sentido continuar a guerra. A única coisa que impede é essa maldita exigência, que o Solano López tem que sair do poder. Então o Caxias defende que se negocie a paz com o Solano López. E o Caxias era um soldado obediente, quer dizer ele passaria isso para o Ministro da Guerra que é o superior dele, o Ministro da Guerra consulta o imperador, e Pedro II ordena Caxias que continue a guerra. O Caxias que não acreditava mais na guerra, continua a guerra até tomar a capital do inimigo, que é a função seis meses depois. Agora, porque Pedro II insiste nesse aspecto? Nessa rendição? Tem dois aspectos. Um é que nós hoje em dia damos pouco valor mas na época tinha muito valor, que era uma questão de honra nacional, honra do soberano, esse tipo de coisa. Então por exemplo, só para vocês terem uma idéia, faz a pouco tempo acho que uns quatro ou cinco anos mais ou menos, o Japão pediu desculpas oficiais aos Estados Unidos por ter atacado Pearl Harbor, sem declarar guerra. Então essa questão da honra nacional. Então Pedro II, achava primeiro que o Paraguai tinha atacado, e atacou, o território brasileiro sem hostilidade do Brasil para o Paraguai. Logo era uma questão de honra nacional. Em segundo lugar, ai sim, é uma questão prática quer dizer, existia uma forte contestação à guerra e a capacidade do governo Imperial de vencer a guerra. Se o governo imperial parasse a guerra sem vencer, poderia acontecer o que aconteceu na Guerra da Cisplatina que Pedro I não conseguiu vencer a guerra, a guerra de 1825 a 1828 contra Buenos Aires, e depois foi uma das causas não a única que levou a crise que o obrigou a sair do país, a renunciar. Na prática ele foi derrubado do poder. Então eu creio que também tem essa dimensão, quer dizer, a Monarquia sairia desmoralizada se não vencesse a guerra. A partir daí uma série de contradições internas vão se agravar que vai levar mais a adiante o fim da monarquia.
Marilú Cabañas: Agora professor, o León Pomer disse que exatamente, já no período do Gaspar Francia, depois Carlos Antonio López, existia praticamente uma distribuição de terras à população e parece que o Duque de Caxias, enfim, os militares brasileiros estariam com dúvidas: nossa! Por que eles conseguem arregimentar tantas pessoas do lado do Paraguai para lutar contra? E o León Pomer explica que eles eram proprietários da terra, eram os donos da própria terra, diferentemente do Brasil que havia escravidão, então eu queria saber o senhor discorda dessa visão do León Pomer?
Francisco Doratioto: Parcialmente, quer dizer que os Paraguaios lutaram bravamente porque eles acreditavam que efetivamente estava em jogo a independência do Paraguai. Que não estava. Mas eles acreditavam que estava e que o objetivo dos aliados era dividir o Paraguai entre si. E eles não poderiam ter outra visão porque, mesmo porque grande parte dos paraguaios eram analfabetos, ao contrário do que diz a lenda. Falavam só guarani, não falavam espanhol. E o único jornal que existia no Paraguai, era do governo. Logo, não tinha imprensa, não tinha fonte de informação e era um país isolado. Então o que dizia o governo, e o Solano López dizia isso, a propaganda dele dizia isso, que o país travava uma luta de morte, quer dizer, ele transformou ele mesmo na causa nacional. O que estava em jogo era ele no poder. Agora, quanto aos paraguaios serem proprietários de terra, veja bem, existiam umas estâncias da pátria, por exemplo, o primeiro governo Gaspar de Francia, para ele se manter no poder, ele confiscou propriedades de todos aqueles que pudessem ser uma sombra sobre ele, inclusive tentou impedir que as famílias tradicionais, fizessem alianças com outras famílias tradicionais proibindo o casamento delas. Então para casar tinha que pedir autorização para o ditador. E ele só autorizava normalmente, casamento de branco com mulher indígena para evitar esse tipo de coisa, e muitas propriedades foram confiscadas e essas propriedades confiscadas foram não dadas como propriedade, mas os camponeses puderam trabalhar essa terra. Mas só que o resultado do trabalho dessa terra ia para o estado. Então tem um economista paraguaio o Herken Krauer, que escreveu um livro em 1986, é antigo já pesquisando em arquivos diplomáticos britânicos e o título era “Gran Bretana y la Guerra de la Triple Alianza”, em que ele mostra quanto era pago, o que era produzido por esses camponeses, que era basicamente tabaco ou erva mate, quanto se pagava para eles, quanto o estado dava depois para o atravessador em Assunção, que normalmente era meia dúzia de famílias amigas do Carlos Antonio López e por quanto isso era vendido em Buenos Aires. Existia um processo de acumulação de capital na mão de uma pequena burguesia nascente, que era essa entorno da família López e dos próprios López que é a família López que usava o estado em uma propriedade pessoal.
Colibri: Está certo professor, muito obrigado pela participação, Marilú por favor.
Marilú Cabañas: Muito obrigada professor pela entrevista de hoje e um grande abraço.
Francisco Doratioto: Eu que agradeço a oportunidade e um abraço para vocês e seus ouvintes, muito obrigado.
Marilú Cabañas: Conversamos com Francisco Doratioto, historiador, professor da Universidade Federal de Brasília e autor do livro “Maldita Guerra”.

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